- Qual é a sua cor preferida, mãe?
- Nenhuma.
- Insensível.
- Desculpa.



Às vezes eu é que me culpo por não ser igual a você, mãe.
Queria passar pelas coisas sem sentí-las.
- Eu não bebo café porque café me dói. Café na mesa me lembra de quando eu era obrigada a levantar cedo e assistir ao jornal da manhã com a minha família e eu era feliz... mas agora eu bebo sozinha. Café com leite na minha boca é mais amargo que essa água suja que você vai me servir.
A humildade é uma coisa estranha.
Quando você acha que a tem... já a perdeu.

Não nasci para escrever.

Memória fraca, senso de ridículo, português escasso. Desatenção, romantismo excessivo, rancor acumulado. Covardia, ensaios frente ao espelho, embaixo do chuveiro, sobre o travesseiro, perdas. Hipocrisia... aconselhar o que não faria, contradição. Branco no preto, coca fanta, oito, oitenta, sem mais.
Explicações, objetividade confusa, comum, insossa.
Vontade calada. Conformação. Confirmação.
Não nasci.

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Milágrimas; Alice Ruiz
Felizes são as crianças, 
que se contentam com televisão, 
cheias da ingenuidade que eu perdi.
Minha mãe sempre me alertou, "crescer não é bom". Agora, o que é de mais faço de menos, o que não devo faço demais. Tudo é incômodo. A comida que tem muito sal, a brisa que assovia muito alto, minhas mãos que tremem como o celular infeliz que vibra. Cresci, e os meus cabelos há tempo não têm aquele cheiro de shampoo de fruta... as palavras que saem da minha boca perderam toda a suavidade, são sujas e merecem dividir meus lábios com o vômito de fim de noite, com o amarelo dos dentes e com a fumaça. Antes não. Antes eu era flor. 
Cresci, amadureci, apodreci.

Deus me encontrou na rua

e disse:
- Cadê aquela menina gentil que orava até quando via um arco-íris?
- Sumiu junto com os arco-íris que via...
- Não tem graça pintá-los quando ninguém mais olha pro céu.
Retrucou.
(...)

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou.
E hoje é já outro dia.


Fernando Pessoa